sexta-feira, 22 de maio de 2020
sábado, 16 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Chamada de Elenco - Superman
A antiga
e extinta revista Wizard, aquela mesma que foi publicada no Brasil pela Editora
Globo em meados dos anos 1990, e anos mais tarde pela Panini, até mudar de
nome, possuía em sua primeira versão uma sessão interessante e instigante - os
editores imaginavam possíveis elencos para filmes baseados em HQs, distribuindo
personagens aos atores e atrizes hollywoodianos mais conhecidos no período, e
escalando os diretores que melhor traduziriam universos particulares a cada
editora ou seguimentos dentro destas. No espírito daquele período, dei-me ao
exercício de imaginar um elenco para um hipotético filme do Superman sem, no
entanto, apontar um diretor para a empreitada. Não parece-me haver coesão
dentre os trabalhos dos profissionais a vista, muito em decorrência de uma
incisiva interferência de produtores e estúdios - assim é que bons filmes que
se anunciavam se tornaram pesadelos para os fãs, e fonte de amargura e prejuízo
para seus realizadores; que o diga Zack Snyder, que parece particularmente
deprimido com seu afastamento do comando do filme da Liga da Justiça, um
fracasso retumbante que, inadvertidamente poderia ter sido ainda pior acaso
houvesse podido completá-lo segundo sua míope visão do mundo dos super-heróis. Homem
de Aço, lançado em 2013 oferta ao expectador justamente os resultados de se
juntar um personagem correto a um realizador equivocado - parábola luminar da
figura do Cristo, Superman simboliza esperança, encarnando nobiliárquicos
preceitos morais e potencialidades humanas em superlativos montantes - jamais
seria bem representado por um diretor de visão sombria e taciturna, que
valoriza os aspectos gráficos de sua arte em detrimento a um roteiro que
falseado, não se alinha as características da protagonista e das demais personagens.
Seu Superman é inseguro, imaturo, amador e perigosíssimo, representando uma
ameaça a ser combatida. Mas, vamos as minhas escolhas para um filme que
necessitaria de um realizador visionário como o foi Richard Donner em 1978.
Definitivo em Christopher Reeve,
encontrou em Henry Cavill um Superman em potencial, um potencial que não se
cumpriu ainda - há quem veja sua primeira tentativa como a última, não por suas
capacidades interpretativas, mas por todo o contexto de um universo
compartilhado de filmes que não encontrou sua melhor expressão, graças aos
realizadores desastrosos de sempre. O estúdio preferiria um rosto desconhecido
para um futuro recomeço, prática usual. Mas como quem manda por aqui dita as
regras, manteria Cavill como o Superman que poderia cumprir-se quando explorado
por um cineasta que lhe compreendesse o éthos. Algumas mudanças pontuais no
visual também ajudariam, como o retorno da cueca vermelha e do pega-rapaz no
cabelo, além de uma paleta de cores luminosa em tons de azul, vermelho e
amarelo mais claros, e uma capa menor, já que a capa gigantesca pertence ao
Batman.
Lois Lane - Lilly Collins
Margot Kidder não fora uma atriz
de grandes atributos, mas uma boa compositora de tipos, e sua Lois Lane
tornou-se a versão mais querida - ela soube equilibrar a curiosidade e
intrepidez próprias da profissão jornalística, sem abrir mão da fragilidade
pedida a companheira clássica do Superman. Amy Adams saiu ilesa de sua
experiência na pele da repórter, em parte por que o roteiro não lhe permitiu
mais; mas penso que novos ares seriam bem-vindos ao par romântico do último
filho de Krypton, cabendo a Lilly Collins encontrar uma Lois Lane espevitada
como Kidder o fez, sem abrir mão das atualizações necessárias.
Jonathan Kent - Tom Hanks
Kevin Costner é o interprete
daquela que talvez seja a pior versão do pai adotivo do Superman - temeroso e
super-protetor, este Jonathan Kent legou ao mundo um filho inseguro, imaturo e
cheio de uma agressividade passiva, manifesta em sua incapacidade de agir
racionalmente; a destruição que ele impõe, não dando grande importância para a
propriedade ou para os transeuntes desavisados que poderiam ferir-se em meio
aos sopapos que trocou com seus conterrâneos é prova disto. Glenn Ford, a seu
turno erigiu um espírito sólido no filho, e é esta persona paterna que se
adéqua melhor na figura de Tom Hanks.
Martha Kent - Diane Lane
A interpretação de Martha Kent
por Diane Lane exorta o redneck brucutu e estúpido do interior dos EUA, mas ao
mesmo tempo revela camadas insuspeitas de uma mãe zelosa, ainda que tão
insegura em relação ao filho quanto o companheiro Jonathan. Por estas nuances
ela mostrou uma química interessante com Cavill, que melhor explorada por um
roteiro apropriado pode permitir a ela aprofundar ainda mais na composição da
personagem, dando toques mais matronais como em Phyllis Thaxter. Claro,
deixando de lado todas as falhas compostas pela caracterização exigia por
Snyder.
Jor-el - Pierce Brosnan
A atuação de Marlon Brando compôs
um Jor-el imponente e sábio, cerebral porém frio, consciente de seus vastos
conhecimentos, tanto quanto do fim iminente para si, sua família e seu mundo.
Seu filho carregará o legado de toda uma espécie, e sua orientação não lhe
poderá faltar - este homem não ganhou grandes luzes na pele de Russel Crowe, um
bom canastrão que precisa garimpar tipos que melhor se conformem a seu estilo.
Pierce Brosnan no entanto, pode agregar uma imponência inglesa, mais bem
amoldada em pontuais flashbacks, afinal ninguém precisa de uma nova história de
origem.
Lara Lor-van
Susannah York e Ayelet Zurer
passaram sem grandes sobressaltos pela pele da mãe biológica do Superman - a
personagem algo anódica em suas adaptações para outras mídias precisaria de uma
nova chance, e uma nova atriz para mostrar-se a pleno, e a escolhida é Gillian
Anderson para o intento. Redescoberta anos depois do fim de Arquivo X, suas
atuações têm sido tão díspares quanto memoráveis, revelando uma insuspeita
versatilidade.
Lex Luthor - Sean Penn
Gene Hackman encarnou um Luthor
caricato, mas adequado ao espírito do filme de 1978. Novos tempos pedem novas
abordagens e necessárias atualizações - John Byrne entendeu isso, e nas HQs
fê-lo um empresário de sucesso, cujos bilhões vinham de seus negócios, lícitos
e ilícitos, e não mais de patéticos assaltos a banco, ou da aplicação de golpes
em moribundas velhinhas milionárias - vergonha alheia do Lex Luthor de Kevin
Spacey, não por culpa dele, claro! Talvez por conta disto sempre vi o antagonista
do azulão como alguém mais velho, e Sean Penn não apenas tem o tipo e a idade,
como também o talento que faltou a Jesse Eisenberg.
Perry White - Stephen Lang
Da prepotente e abrutalhada
figura do Coronel de Avatar, ao psicótico veterano cego de O Homem
nas Trevas, Stephen Lang tem sido brindado com papéis interessantes e
vistosos, e a autoridade que é capaz de impor as suas personagens pode casar
perfeitamente ao velho editor rabugento de O Planeta Diário - com a vantagem de
manter-se a etnia da personagem, uma característica que vem sendo desrespeitada
por Hollywood já há muitos anos, anos estes de patrulhamento ideológico,
políticas afirmativas e expropriação cultural.
Jimmy Olsen - Cole Sprouse
O sidekick mais a escanteio de um
super-herói do primeiro escalão, Jimmy Olsen teve uma vida mais agitada nas HQs
que em suas adaptações para outras mídias. Acaba por encarnar uma espécie de
estorvo para o Superman, principalmente porque se põe em situações perigosas.
Reinventado como um habilidoso repórter fotográfico ou documentarista
iniciante, poderia agregar informações pertinentes ao enredo, além de um
possível alívio cômico.
Lana Lang - Emma Corrin
Poderia surgir em flashbacks
oportunos da juventude do Superman. Uma expressiva ruiva de olhos azuis daria
vida à perfeição ao primeiro amor de um juvenil Clark Kent, e esta seria a
atriz inglesa Emma Corrin.
General Zod - Bryan
Cranston
Para o caso de ser utilizado já
no primeiro filme, ou ser o antagonista da possível sequência (já que as
versões com Christopher Reeve parecem impor um padrão), Zod ficaria a cargo do
talentoso Bryan Cranston, que mais do que se impor pela prepotência ou
fanatismo, poderia mostrar-se um inimigo à altura por seu pensamento militar
analítico, repleto de estratagemas e subterfúgios, capaz de dobrar o Superman
pela força do intelecto, e não dos punhos.
Ursa / Faora - Noomi Rapace
A principal assecla do General
Zod, Noomi Rapace somaria a Faora uma selvageria presente em sua expressão - é
um personagem que, se bem explorada, oferece uma complexidade que pode render
uma oponente valorosa ao Superman, muito mais do que o visto até então em suas
encarnações no cinema.
Non / Quex-ul - John Cena
No quesito entrar mudo e sair
calado, John Cena pode fazer uma figuração de luxo, já que começa a trilhar os
caminhos de Dwayne Johnson. Não é o que se pede a ele, já que Quex-ul seria
aqui a força e a fisicalidade a qual Zod não se submeteria, apesar de ter os
mesmos poderes que os demais kryptonianos submetidos as condições de vida na
Terra. Treinado em combate, essa encarnação de Quex-ul forçaria a inteligência
do Superman para ser obliterado, muito mais do que ofertar uma formidável
disputa de poderes.
Eve Teschmacher - Nicole
Austin
Nicole Austin ornamentaria a vida
de Lex Luthor numa boa encarnação da Srta. Teschmacher, o belo e burro troféu
do antagonista mor do azulão. No entanto, poderia ser ela a figura ambígua da
secretaria / amante / motorista que, suficientemente próxima conhece os
meandros das maquinações de Luthor; e a altura tanta, forneceria as informações
pertinentes aos mocinhos.
Otis - Jack Black
Alívio cômico? Não aqui, em que
Otis, um antigo e esquecido parceiro de crimes de Luthor amarga a condenação
máxima no corredor da morte, destilando ódio contra seu antigo colega que tornou-se
magnata industrial com ligações nas altas esferas do poder do Estado. Assim
como Taschmacher, seus conhecimentos poderiam ser utilizados para frustrar os
objetivos do vilão.
Hope Taya - Kiki Layne
Uma mulher afro-americana
intimidadora ficaria a cargo de Kiki Layne, numa boa parceria com sua
contraparte loura a guardar a integridade física de Lex Luthor.
Mercy Graves - Mackenzie
Davis
Loura, linda e mortal, a fiel
guarda-costas de Luthor ficaria perfeita na pele de Mackenzie Davis, que pôde
mostrar-se em ação no último filme do Exterminador do Futuro. Sua participação
poderia ser maior no primeiro filme, maior e importante para a trama, claro.
Kara Zor-el / Linda Danvers
/ Supergirl - Odeya Rush
A participação especial que
faltava, ou a trama principal do filme? Não importa - mas, a Supergirl poderia
ser a ponte para uma primeira ou segunda sequência, em que Brainiac seria o
antagonista, ao lado dos demais kryptonianos (Zod, Faora e Quex-ul), ou não.
Melissa Benoist tem honrado a capa na série de TV, mas uma cara nova, mais
próxima as feições e biotipo de Henry Cavill, e uma atitude nova são a ajuda
que Kal-el precisará para derrotar seus inimigos.
Bruce Wayne / Batman -
Armie Hammer
Armie Hammer esteve envolvido no
passado a um projeto de filme com o morcegão, mas não foi então que vestiu o
capuz. Seu porte físico e seu estilo de atuação emprestariam a Bruce Wayne a
exata medida de indolência e apatia de um playboy mimado, pouco ou nada
interessado nos negócios da família - ainda aqui, o maior detetive do mundo:
cerebral, calculista, frio e tenaz. Nada que lembrasse o Batman furioso, afoito
e dependente da tecnologia de Lucius Fox que fora encarnado por Christian Bale;
menos ainda sua versão mais amarga, rabugenta e burra a que Ben Affleck dera vida.
Diana Prince / Mulher
Maravilha - Gal Gadot
Sabe aquele momento em que
Christopher Reeve parecia resolver qualquer situação com um sorriso de canto de
boca, meio acanhado, coisa de caipira mesmo? Então, Gal Gadot faz igual! E os
filmes em que ela encarna a filha dileta da Ilha Paraíso estão aí para não me
deixar mentir. Mordi minha língua quando a vi caracterizada e em ação, e embora
seu filme solo não seja exultante, cumpre o papel de história de origem a
contento. Volta aqui para uma participação especialíssima.
quinta-feira, 23 de abril de 2020
domingo, 29 de março de 2020
domingo, 22 de março de 2020
Cinema em poucas linhas #7
Zumbilândia 2 – Um pouco mais do mesmo? Claro, por
que não? Ao que parece os filmes de zumbi, inclusos aí as séries, games,
quadrinhos e tudo o mais, são um fetiche do mundo moderno, ou só dos EUA que
curte essa pegada milenarista e sobreviventista que remete a época da Guerra
Fria. Pro povo abaixo do equador é só farra, e uma aventura mais de Woody
Harrelson e sua trupe de sobreviventes de um apocalipse zumbi não faz nenhum
mal – muito pelo contrário: tem o adendo bem-vindo de Rosário Dawson, e de um
sem número de situações absurdas que bem poderia ocorrer num mundo
hipoteticamente dominado por uma praga zumbi. Não falou de ninguém, chega pra
somar e expande o que se viu no primeiro filme; vale até a pipoca.
Frozen 2 – Prosseguindo nesta toada das continuações,
Elsa e sua irmã Ana ressurgem para... para quê mesmo? A exemplo do sentido
quando diante de Toy Story 4, Frozen 2 exorta emoções contraditórias – ora é
divertido, principalmente com o alívio cômico de Olaf, ora é tedioso,
prolongado e sem função. Para que criaram essa continuação? Dinheiro, claro!
Mas pesou o compromisso da continuação, principalmente diante do volume
superlativo e fenomênico da primeira aventura da rainha do gelo e sua trupe.
Elsa adquire uma figura ainda mais diáfana e etérea, quase uma força da
natureza personificada, mas a história se perde entre ires e vires e revelações
que acabam pouco importando. É um filme que tanto faz. Espero que jamais façam
uma continuação de Moana.
Malévola 2 – Difícil desgostar de Angelina Jolie, o
zênite da beleza atual. Menos ainda em sua forma alada como a feiticeira que se
mostrou boa, lá no fundo; o primeiro filme tinha uma razão clara ao mostrar o
que seria a versão real para a lenda d’A Bela Adormecida. Já tal continuação
parece fora de lugar, com um fio de história que poderia ter dado muito mais
filme do que o que se realizou. Ao fim e ao cabo, Malévola se mostra a
encarnação da própria Fênix, a ave legendária capaz de renascer das próprias
cinzas, personificando uma espécie de messias do seu povo, que até então não
havia dado as caras. Entre essa relutância por abraçar uma causa que não parece
sua, e evitar que a afilhada com catalepsia contraia matrimônio com o filho de
Michelle Pfeiffer, rainha ruim paca, Malévola parece perdida e o espectador
idem. Filme esquecível.
Ford x Ferrari – James Mangold conta com minha
total antipatia dado o que fez com Wolverine; mas aqui, longe dos super-heróis,
ele se sai melhor. E bem melhor. Não é um filme perfeito e irrepreensível, mas
mantem um ritmo constante e cativante, prendendo tanto mais por ser uma
história que lida com aspectos reais, tais quais o embate de duas das mais singulares
e bem-sucedidas montadores de veículos de todos os tempos, quanto pelas
atuações complementares de Matt Damon e Christian Bale. Os clichês estão todos
em seus devidos lugares – há o adulador oportunista, o idealista prodígio, o
administrador diplomático, os tubarões da indústria alienados da realidade por
suas fortunas e famas, enfim, nada que destoe de uma história dramatizada para
caber na fórmula fílmica. Ficou redondinho. Mas é James Mangold...
Um Lindo Dia na Vizinhança – Fred Rogers foi um
pedagogo e apresentador de programas infanto-juvenis americano, e neste filme é
interpretado por Tom Hanks numa atuação excelente. Mas nem de longe é uma
biografia do sujeito – na realidade, ao ser incumbido de fazer um perfil deste
um jornalista tem sua vida revirada. As camadas de interpretação de Hanks
apenas provam merecida sua indicação ao Oscar e, desculpe Joaquin Phoenix, mas
deveria ter levado. Fred Rogers parece um personagem, uma figura montada cujo
cinismo do jornalista faz farejar histórias escabrosas acerca deste, mas, ledo
engano – positivamente humano, solidário e solícito, Rogers vagarosamente
descontrói os traumas de Lloyd Vogel ajudando-o a se reconstruir em sua melhor
versão, para perdoar o pai, amá-lo e a todos de sua família. A cena no
restaurante em que Rogers pede a Vogel que faça um minuto de silêncio para
pensar em todas as pessoas que já o amaram em sua vida é, certamente, a quebra
de quarta parede mais linda que já vi, e uma prova mais do talento colossal de
Tom Hanks. Um filme cativante, lindo e necessário.
Star Wars IX – Rey é neta do imperador Palpatine,
que até então estava morto desde O Retorno de Jedi; grande revelação? Nhééé...
fiquei me perguntando quem seria o filho deste, já que nem sabia que existia.
Então, de alguma forma vivo e atuante, o sujeito tramara o retorno de seu
império do terror, para uma vez mais ser sobrepujado pelo lado bom da Força.
Esse povo não cansa desse maniqueísmo todo, desse embate exaustivo do bem
contra o mal? Problema maior que as peças deste tabuleiro galáctico são sempre
as mesmas, senão as principais, seus descendentes. Enfadonho até a alma, e nem
o velho time parece capaz de tirar leite de pedra numa história que já caducou
há duas gerações, ou mais. Espero apenas que os envolvidos consigam fazer uma
carreira decente depois de tal desastre.
domingo, 12 de janeiro de 2020
Cinema em poucas linhas #6
Coringa
Todos que se propuseram a tratar deste filme já o fizeram, de tal conta que parece redundante afirmar o óbvio - é um bom filme? Sem dúvida! Mas, é um daqueles filmes que lhe deixam pensando um cadinho mais depois da sessão. Chega a ser surpreendente que se trata de um produto do mesmo estúdio que entregou Liga da Justiça, principalmente por se tratar de uma personagem pertencente ao mesmo universo. O Batman de Affleck encontraria o A. Fleck de Joaquin Phoenix? Dificilmente, mas em se tratando da Warner/DC não duvido de nada. A história conta a escalada de loucura do sujeito que daria no Coringa, aqui um doente mental que, de sofrimento em sofrimento, de delírio em delírio, tem seu momento de catarse e felicidade na violência e no abraço voluntário a insanidade. Alguns profetas do apocalipse prescreveram tratar-se de um filme perigoso, que incitaria os lunáticos de plantão ao assassínio e a revolta social; outros viram na figura de Arthur Fleck a epítome do outsider, do nerd perdedor que aprecia filmes antigos e ainda mora com a mãe. Sim, alguns idiotas se identificaram com a personagem, e se revoltaram quando ele se torna um vilão, acusando o diretor de fascista e outros adjetivos menos elogiosos. Restou a estes apontar que não se trata do Coringa, mas aí já não o era desde O Cavaleiro das Trevas. Nos quadrinhos, sabiamente a origem do Coringa fora sempre envolta em nebulosas nuvens de mistério, surgindo diversas versões, cada qual conveniente ao momento. O Coringa de Todd Phillips não é melhor nem pior, mas é o que fala mais agudamente ao zeitgeist atual, e aí está sua genialidade.
Rambo 5
Em ano que viu a estréia do terceiro e insatisfatório capítulo da saga de John Wick, Rambo tornou-se anacrônico em sua quinta aparição cinematográfica - quem gostou do elegante matador interpretado por Keanu Reeves detestou ver Stallone decepando membros, e vice-versa. Fato é que o soldado traumatizado, veterano da Guerra do Vietnã, poucas vezes permitiu uma leitura senão maniqueísta de sua trajetória - porque seria diferente agora? No ocaso da vida, Rambo emendou os cacos da própria existência no mais próximo da normalidade que conseguiu, até que a garota que tomou como filha resolve desvendar a própria origem e, agindo inconsequentemente como todo adolescente, enfia-se em uma viagem fatal ao México. Rambo não ia deixar por menos e começa a matança. Rápido e cortante como o facão que sempre portou, Rambo 5 não se perde em dar profundidade ao que não tem, uma parábola ao caráter do pai da personagem de Yvette Monreal, que recusou-a como filha por que sim, e nada mais. Não há espaço para relativização, para discutir o caráter deste ou daquele. Para quem não esperava mais do que isto da personagem de Rambo, o filme é uma grande despedida, com sabor agridoce - ele morre no final? Cada um que interprete como bem entender, mas penso que não - ele até gostaria, mas persiste, um incômodo para si mesmo e para o mundo que tornou-se-lhe ainda mais hostil.
Era uma Vez em Hollywood
Medonho! Gostaria, sinceramente, de ter outro parecer a dar acerca deste filme, mas não encontro outro melhor. Tarantino, a meu ver, é um diretor irregular - apenas dois de seus filmes são bons, bons ao ponto de serem geniais: Pulp Fiction e Bastardos Inglórios! Todo o restante é, senão mediano, um amontoado horroroso de cenas sem sentido que se justapõe para justificar um plot tolo. Em Bastardos Inglórios, em uma espécie de tarantinoverso, Hitler é morto de maneira diversa daquela registrada pela historiografia oficial - ficou lindo, genial. Em Era uma Vez em Hollywood, a mesma lógica se impõe, e Tarantino resolve homenagear o cinema, alterando o final trágico da atriz Sharon Tate, que foi morta pela família Mason em 1969. Para tanto, ele inventa dois personagens improváveis, que aos trancos e barrancos acabam por impedir a tragédia que ocorreu na vida real. Todo o encadeamento tão bem urdido para contar uma história que se passou na II Grande Guerra Mundial, aqui resulta numa espécie de masturbação acerca das vidas patéticas de um ator e seu dublê na busca por relevância profissional - e dá-lhe cena irrelevante, tomadas longas, resultando num ritmo moroso que prescreve um desfecho violento que, nem por isso, justifica tudo o que fora visto desde o primeiro minuto da projeção. Aquela sensação de tempo perdido é inescapável. Uma obra lamentável cuja expectativa despertada não corresponde ao produto final. Quero meu dinheiro de volta.
O Irlandês
Hollywood padece de imaturidade juvenil como nunca antes - super-heróis e animações dominam as telas grandes, enquanto o grande pulo do gato para os contadores de boas histórias está na TV. É uma grande inversão do que existia no passado, em que o cinema era o altar máximo almejado. Netflix não é apenas TV, é TV por streaming, ou seja, o espectador escolhe sua programação. Para tanto, é preciso um catálogo vasto e variado de conteúdo, e O Irlandês é um de seus produtos exclusivos, de pedigree próprio, com a assinatura do genial Martin Scorsese. Conta a história, sem pressa, de um capanga da máfia que está sempre pronto a sujar as mãos para seus chefes - acaba prestando serviços para Jimmy Hoffa, supremo líder sindical dos caminhoneiros americanos, de quem se torna amigo. Entretanto, vê-se obrigado a matá-lo. Basicamente a história revela uma das muitas versões para o desaparecimento lendário de uma figura mítica da história americana, um homem que concentrou muito poder em si mesmo, e acabou incomodando muita gente perigosa. O filme reúne uma trinca sem igual de protagonistas - Robert De Niro encontrou o papel perfeito para manter a carranca que vem sustentando desde há alguns anos, não parecendo ser um grande desafio interpretativo dar vida a esta matador da máfia; Al Pacino sai-se melhor, mas Joe Pesci é a grande surpresa. Conhecido por uma veia interpretativa histriônica, aqui é um vulcão adormecido, cuja calma aparente esconde rios de lava prontos a aflorar a qualquer minuto; é uma pena não estar atuando com mais frequência. Este filme é já um clássico desde o berço. Imperdível.
Ad Astra
Resumidamente - um sujeito precisa alcançar os confins mais distantes do sistema solar conhecido para compreender que seu pai é um merda! Pronto, eis o filme. De alguns grandes filmes dedicados a explorar a temática espacial a surgirem nos últimos anos, devoto algum gostar apenas a Gravidade, aquele em que Sandra Bullock precisa se virar sozinha pra deixar a órbita geoestacionária e voltar a Terra, de preferência em segurança. Interestelar é um porre de tão pretensioso, e tem uma historinha boba que só; O Primeiro Homem poderia bem ser um docudrama, mas está longe de empolgar. Vida, que nem é tão grande assim, mas tem um elenco estelar, é uma releitura desnecessária de Alien. Perdido em Marte não se decide entre ser uma aventura, uma comédia ou um drama, mas até que é redondinho. Brad Pitt encerra 2019 com dois filmes ruins e ambiciosos, o que não significa nada para ele, já que tascou uma indicação ao Oscar por Era uma Vez em Hollywood. Talvez tivesse vontade de ter uma aventura espacial para chamar de sua, mas não há o que justifique a existência de Ad Astra - os velhos clichês estão lá, e o andamento lento que se propõe a dar uma ideia das grandes distâncias do sistema solar empaca o filme que não chega a lugar nenhum - o sujeito quer chegar ao seu pai para encontrar paz de espírito. Ele consegue, mas não do modo esperado - o velho astronauta é obcecado com o espaço e com a busca por vida inteligente, e ele não chegou tão longe para deixar seu filho o impedir de morrer tentando. Cada qual consegue o que quer, mas precisava ir tão longe pra tanto? Filme besta...
O Irlandês
Hollywood padece de imaturidade juvenil como nunca antes - super-heróis e animações dominam as telas grandes, enquanto o grande pulo do gato para os contadores de boas histórias está na TV. É uma grande inversão do que existia no passado, em que o cinema era o altar máximo almejado. Netflix não é apenas TV, é TV por streaming, ou seja, o espectador escolhe sua programação. Para tanto, é preciso um catálogo vasto e variado de conteúdo, e O Irlandês é um de seus produtos exclusivos, de pedigree próprio, com a assinatura do genial Martin Scorsese. Conta a história, sem pressa, de um capanga da máfia que está sempre pronto a sujar as mãos para seus chefes - acaba prestando serviços para Jimmy Hoffa, supremo líder sindical dos caminhoneiros americanos, de quem se torna amigo. Entretanto, vê-se obrigado a matá-lo. Basicamente a história revela uma das muitas versões para o desaparecimento lendário de uma figura mítica da história americana, um homem que concentrou muito poder em si mesmo, e acabou incomodando muita gente perigosa. O filme reúne uma trinca sem igual de protagonistas - Robert De Niro encontrou o papel perfeito para manter a carranca que vem sustentando desde há alguns anos, não parecendo ser um grande desafio interpretativo dar vida a esta matador da máfia; Al Pacino sai-se melhor, mas Joe Pesci é a grande surpresa. Conhecido por uma veia interpretativa histriônica, aqui é um vulcão adormecido, cuja calma aparente esconde rios de lava prontos a aflorar a qualquer minuto; é uma pena não estar atuando com mais frequência. Este filme é já um clássico desde o berço. Imperdível.
Ad Astra
Resumidamente - um sujeito precisa alcançar os confins mais distantes do sistema solar conhecido para compreender que seu pai é um merda! Pronto, eis o filme. De alguns grandes filmes dedicados a explorar a temática espacial a surgirem nos últimos anos, devoto algum gostar apenas a Gravidade, aquele em que Sandra Bullock precisa se virar sozinha pra deixar a órbita geoestacionária e voltar a Terra, de preferência em segurança. Interestelar é um porre de tão pretensioso, e tem uma historinha boba que só; O Primeiro Homem poderia bem ser um docudrama, mas está longe de empolgar. Vida, que nem é tão grande assim, mas tem um elenco estelar, é uma releitura desnecessária de Alien. Perdido em Marte não se decide entre ser uma aventura, uma comédia ou um drama, mas até que é redondinho. Brad Pitt encerra 2019 com dois filmes ruins e ambiciosos, o que não significa nada para ele, já que tascou uma indicação ao Oscar por Era uma Vez em Hollywood. Talvez tivesse vontade de ter uma aventura espacial para chamar de sua, mas não há o que justifique a existência de Ad Astra - os velhos clichês estão lá, e o andamento lento que se propõe a dar uma ideia das grandes distâncias do sistema solar empaca o filme que não chega a lugar nenhum - o sujeito quer chegar ao seu pai para encontrar paz de espírito. Ele consegue, mas não do modo esperado - o velho astronauta é obcecado com o espaço e com a busca por vida inteligente, e ele não chegou tão longe para deixar seu filho o impedir de morrer tentando. Cada qual consegue o que quer, mas precisava ir tão longe pra tanto? Filme besta...
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